Renata Rodrigues Marques
Um, dois, três. Era o tempo suficiente
para os holofotes de acenderem e direcionarem-se para o pequeno ponto no centro
do palco. Era branco cor de neve e estavam o cobrindo com um manto vermelho
como o sangue que jorra de alguém que acabara de levar um tiro. Tão leve frágil
e natural que poderia tranquilamente ser confundida com uma folha ao vento. A
música se iniciara, abrindo caminho para um “sissone” maravilhoso e três
incríveis “fouettés”. E apesar de o teatro estar abarrotado nada mais parecia
atrair a atenção do universo. As estrelas se curvavam a ela e a sua mágica. À
franzina folha branca e vermelha rodando em cima de suas sapatilhas
desgastadas.
Então as luzes se apagavam e o tudo
era nada e o nada uma enorme parte do tudo. No escuro, o orgulho de si mesma
era demonstrado em forma de lagrimas que desciam tranquilamente pela face
rosada, misturando-se com a exaustão. E mesmo cansada depois de sair dali ela
se contentaria apenas com uma garrafa d’água e um beijo na testa da mulher que
a deu a luz. Apesar de sua ultima opção não existir.
Ela saia dali e então olhava para o
reflexo no espelho tentando enxergar-se, desistindo logo depois, desfazendo o
coque na cabeça para deixar os cabelos cor-de-fogo suados caírem por sobre os
ombros e contrastarem com a pele e os olhos azuis escuros que puxavam para um
cinza, e moveu o corpo saindo da pequena sala em direção a qualquer espaço em
que pudesse ser ninguém.
Adentrou ali com muita calma, piscando
algumas vezes para se acostumar com a pouca luminosidade, e faria o mesmo com
as orelhas se pudesse, para privar os ouvidos do contato brusco com o som
pesado que houvesse de fundo. O forte cheiro de cigarros e bebidas a deixava
tonta e sem pedir licença penetrava em suas roupas. Com um sorriso satisfeito
nos lábios partiu em direção ao bar, o que desintencionalmente a fazia
atravessar o pub e a permitia colher mais informações do local.
E ria e dançava e bebia e se
apaixonava seis vezes antes das onze e cinquenta e nove e sem saber o que valia
ou não a pena ela ia se tornando mais uma e mais única. Ficou por ali até
sentir que estava na encruzilhada entre a terra do nunca e o país das
maravilhas e então rumou para casa. Esta se encontrava em um dos subúrbios da
cidade, e assim como todas as outras do quarteirão era branca com os telhados e
janelas marrons. Conseguiu torcer a chave e encontrou a maçaneta, dando um
enorme suspiro antes de gira-la. Ela já sabia o que iria encontrar do outro
lado da porta.
Como o previsto, lá estava a velha
poltrona estofada que lhe parecia tão macia agora que sentia que poderia
tranquilamente atirar-se ali e dormir, se a mulher não estivesse sentada sobre
ela. A expressão era rígida, as olheiras profundas e apesar de ter marcas de
seus quarenta e poucos anos era fácil notar que as duas eram mãe e filha.
- Ora, ora. – Bateu palmas a mulher, levantando-se da
poltrona e pondo-se na frente da garota com um sorriso completamente irônico e
descrente na face. Ela sabia que a outra estava com o discurso perfeitamente
preparado em sua mente. Não tinha como fugir. – Estava aqui pensando por onde
andava a minha adorável filha, que desapareceu depois do concerto mais
importante da sua vida. Eu também acho que ela gostaria de me agradecer porque
eu fui bem convincente na minha desculpa de que ela estava indisposta para se
juntar aos diretores da Royal Academy of Dance. ESCOLA PARA QUAL ERA IRÁ AO
OUTONO E PESSOAS QUE SE ELA TIVESSE UM PINGO DE JUIZO ESTARIA TENTANDO AGRADAR.
– Sua voz ainda era calma, mas havia aumentado consideravelmente o tom.
Um silêncio agonizante se instalara na
sala de estar. A jovem olhava para um quadro na parede, uma pintura dela
dançando quando tinha seus três anos. A vida inteira ela havia sido aquilo e
ponto. Sem discussões. Ela também de certa forma amava o que fazia e sentia que
não poderia viver para outra coisa. Mas a mãe era doentia e nunca achava que
ela era boa o suficiente, mesmo depois de ter sido aceita nas três melhores
escolas de balé do mundo. Não era o bastante. Ela tinha que ser perfeita. Um
anjo. E ela até tentara. Jurara e aceitara isso calada. Mas de uns tempos pra
cá apenas queria se descobrir e não estava dando certo do jeito que as coisas
iam indo. Ela não era uma marionete.
Provaria isso.
- Tudo bem, mamãe. Eu peço desculpas e
lhe agradeço. Não irá acontecer novamente. Vou para cima tomar um banho e
descansar. Amanhã acordo cedo para treinar. – Disse sem expressão, com a mínima
vontade. Não adiantava discutir, esperou-a consentir e subiu as escadas. Sempre
fora a mesma monotonia, sempre seria.
Cansada, estava se arrastando até seu
espaço quando passou pelo quarto do irmão e sentiu algo como um aperto no
coração. Entrou analisando cada parte dali, desde os bonecos até a bateria no
fundo do lugar. E então, encontrou-o mergulhado em sonhos, tão pequeno e frágil
com seus cinco anos de idade, tão doce para um mundo cruel como aquele.
- Sinto muito. Eu te amo. –
Abaixou-se, escutando as batidas do seu pequeno coraçãozinho e sussurrou
depositando um pequeno e demorado beijo em sua testa quente, retirando-se dali
logo depois.
Dois dias haviam se passado e ela
estava de malas prontas no aeroporto esperando seu vôo para Praga ser chamado.
E à medida que se aproximava do portão de embarque mais tranquila ela se
sentia. Poucos minutos a separavam da liberdade. Finalmente, virando-se para
trás, encarando o rosto da pequena criança que lhe mandava um beijo com as mãos
e que seria certamente o único ser que lhe faria falta, soltou um sorriso
amigável. Ela estava provando que era forte demais para ser manipulada.
E então, algumas horas depois, ela se
fora. Fora voando, livre, como queria. Dizem que dança lindamente no céu, junto
com as estrelas. Cadente. Olhando pelo pequeno irmão. Para sempre.
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