quinta-feira, 9 de agosto de 2012

DESAPARECER


Renata Rodrigues Marques



Um, dois, três. Era o tempo suficiente para os holofotes de acenderem e direcionarem-se para o pequeno ponto no centro do palco. Era branco cor de neve e estavam o cobrindo com um manto vermelho como o sangue que jorra de alguém que acabara de levar um tiro. Tão leve frágil e natural que poderia tranquilamente ser confundida com uma folha ao vento. A música se iniciara, abrindo caminho para um “sissone” maravilhoso e três incríveis “fouettés”. E apesar de o teatro estar abarrotado nada mais parecia atrair a atenção do universo. As estrelas se curvavam a ela e a sua mágica. À franzina folha branca e vermelha rodando em cima de suas sapatilhas desgastadas.

Então as luzes se apagavam e o tudo era nada e o nada uma enorme parte do tudo. No escuro, o orgulho de si mesma era demonstrado em forma de lagrimas que desciam tranquilamente pela face rosada, misturando-se com a exaustão. E mesmo cansada depois de sair dali ela se contentaria apenas com uma garrafa d’água e um beijo na testa da mulher que a deu a luz. Apesar de sua ultima opção não existir.

Ela saia dali e então olhava para o reflexo no espelho tentando enxergar-se, desistindo logo depois, desfazendo o coque na cabeça para deixar os cabelos cor-de-fogo suados caírem por sobre os ombros e contrastarem com a pele e os olhos azuis escuros que puxavam para um cinza, e moveu o corpo saindo da pequena sala em direção a qualquer espaço em que pudesse ser ninguém.

Adentrou ali com muita calma, piscando algumas vezes para se acostumar com a pouca luminosidade, e faria o mesmo com as orelhas se pudesse, para privar os ouvidos do contato brusco com o som pesado que houvesse de fundo. O forte cheiro de cigarros e bebidas a deixava tonta e sem pedir licença penetrava em suas roupas. Com um sorriso satisfeito nos lábios partiu em direção ao bar, o que desintencionalmente a fazia atravessar o pub e a permitia colher mais informações do local. 

E ria e dançava e bebia e se apaixonava seis vezes antes das onze e cinquenta e nove e sem saber o que valia ou não a pena ela ia se tornando mais uma e mais única. Ficou por ali até sentir que estava na encruzilhada entre a terra do nunca e o país das maravilhas e então rumou para casa. Esta se encontrava em um dos subúrbios da cidade, e assim como todas as outras do quarteirão era branca com os telhados e janelas marrons. Conseguiu torcer a chave e encontrou a maçaneta, dando um enorme suspiro antes de gira-la. Ela já sabia o que iria encontrar do outro lado da porta.

Como o previsto, lá estava a velha poltrona estofada que lhe parecia tão macia agora que sentia que poderia tranquilamente atirar-se ali e dormir, se a mulher não estivesse sentada sobre ela. A expressão era rígida, as olheiras profundas e apesar de ter marcas de seus quarenta e poucos anos era fácil notar que as duas eram mãe e filha.

- Ora, ora.  – Bateu palmas a mulher, levantando-se da poltrona e pondo-se na frente da garota com um sorriso completamente irônico e descrente na face. Ela sabia que a outra estava com o discurso perfeitamente preparado em sua mente. Não tinha como fugir. – Estava aqui pensando por onde andava a minha adorável filha, que desapareceu depois do concerto mais importante da sua vida. Eu também acho que ela gostaria de me agradecer porque eu fui bem convincente na minha desculpa de que ela estava indisposta para se juntar aos diretores da Royal Academy of Dance. ESCOLA PARA QUAL ERA IRÁ AO OUTONO E PESSOAS QUE SE ELA TIVESSE UM PINGO DE JUIZO ESTARIA TENTANDO AGRADAR. – Sua voz ainda era calma, mas havia aumentado consideravelmente o tom.

Um silêncio agonizante se instalara na sala de estar. A jovem olhava para um quadro na parede, uma pintura dela dançando quando tinha seus três anos. A vida inteira ela havia sido aquilo e ponto. Sem discussões. Ela também de certa forma amava o que fazia e sentia que não poderia viver para outra coisa. Mas a mãe era doentia e nunca achava que ela era boa o suficiente, mesmo depois de ter sido aceita nas três melhores escolas de balé do mundo. Não era o bastante. Ela tinha que ser perfeita. Um anjo. E ela até tentara. Jurara e aceitara isso calada. Mas de uns tempos pra cá apenas queria se descobrir e não estava dando certo do jeito que as coisas iam indo. Ela não era uma marionete.  Provaria isso.

- Tudo bem, mamãe. Eu peço desculpas e lhe agradeço. Não irá acontecer novamente. Vou para cima tomar um banho e descansar. Amanhã acordo cedo para treinar. – Disse sem expressão, com a mínima vontade. Não adiantava discutir, esperou-a consentir e subiu as escadas. Sempre fora a mesma monotonia, sempre seria.

Cansada, estava se arrastando até seu espaço quando passou pelo quarto do irmão e sentiu algo como um aperto no coração. Entrou analisando cada parte dali, desde os bonecos até a bateria no fundo do lugar. E então, encontrou-o mergulhado em sonhos, tão pequeno e frágil com seus cinco anos de idade, tão doce para um mundo cruel como aquele.

- Sinto muito. Eu te amo. – Abaixou-se, escutando as batidas do seu pequeno coraçãozinho e sussurrou depositando um pequeno e demorado beijo em sua testa quente, retirando-se dali logo depois.

Dois dias haviam se passado e ela estava de malas prontas no aeroporto esperando seu vôo para Praga ser chamado. E à medida que se aproximava do portão de embarque mais tranquila ela se sentia. Poucos minutos a separavam da liberdade. Finalmente, virando-se para trás, encarando o rosto da pequena criança que lhe mandava um beijo com as mãos e que seria certamente o único ser que lhe faria falta, soltou um sorriso amigável. Ela estava provando que era forte demais para ser manipulada.

E então, algumas horas depois, ela se fora. Fora voando, livre, como queria. Dizem que dança lindamente no céu, junto com as estrelas. Cadente. Olhando pelo pequeno irmão. Para sempre.


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