Helen Louise Colin
Heinen
Hoje,
bem como na manhã passada Inês acordou cedo, vestiu sua roupa mais bonita e foi
para o porto de navios de sua cidade. Ao chegar lá, assim como no dia anterior,
dirigiu-se ao cais e ficou ali observando o mar atentamente, feito sentinela.
Não fazia para observar as embarcações ou tampouco contemplar o mar. Ela ficava
ali, até que caísse a noite, a espera de alguém que lhe foi tirado por conta do
destino.
Inês
já era uma senhora de idade bem avançada. Seus cabelos outrora negros e
sedosos, agora davam espaço a fios grisalhos e frágeis. Suas mãos que portavam
dedos habilidosos no piano agora estavam enrugadas e repletas de manchas. O
costume de levantar todas as manhãs e ir direto ao porto não era recente. Há
vários anos que Inês tinha isso como rotina, a mais de quatro décadas na
realidade. Muitos diziam que Inês enlouquecera, outros achavam que ela apenas
censurava o mar pelo acontecido, mas a verdade é que o costume era por culpa da
esperança. Esperança de reaver o que lhe tinha sido tirado. Esperança de
resgatar um passado que ela não vivera.
Poucos
sabem da verdadeira história de Inês, na realidade, ela mesma não se lembra por
completo. Há quem diga que o que leva
ela todos os dias ao porto foi consequência de uma separação dolorosa. De certo modo estes
estão certos.
Era
verão de 1968 e Inês estava no porto vendendo seus doces caseiros. Junto dela
estava Vicente, seu filho, que na época tinha em torno de cinco anos. Vicente
sempre fora uma criança curiosa, do tipo que enquanto a mãe vendia seus
produtos, corria em meio às pessoas. Inês distraiu-se em seu ofício e quando
percebeu, havia perdido seu menino de vista. Procurou-o sem sucesso enquanto
navios se lançavam lentamente ao mar. Em seguida perguntou por ele às pessoas
conhecidas, e depois, com lágrimas nos olhos perguntava a qualquer um a sua
frente.
O
sol ia sumindo quando alguém veio lhe trazer a tal notícia: Vicente estava
brincando com algumas crianças que esperavam partir de viagem e acabou acompanhando-as
enquanto entraram na embarcação, e por algum descuido ninguém havia percebido
aquele pequeno intruso no navio de nome Alvorada.
Inês
ficou desesperada, não aceitava o fato de ter perdido seu garotinho. Voltou
para casa, mas passou a noite inteira acordada. Logo que amanheceu voltou ao
porto, ficou lá por boa parte da manhã, mas de nada adiantou. Concluiu que
Vicente realmente entrara no navio, pois não o encontrava em nenhuma parte.
Tentou ficar mais tranquila, olhava o mar ansiosamente em busca da imagem de
Alvorada ou qualquer outra coisa que trouxesse de volta seu menino. Mas na realidade, ao menos tinha certeza de
que o garoto realmente entrara a bordo.
Assim
algumas semanas se passaram, e todo o dia Inês ia ao porto em sua incessante
busca. Até que certa vez um anúncio abalou toda a cidade. A comoção era geral.
O porto inteiro chorava.
A
notícia era que um navio que saíra do porto dias atrás havia naufragado, e este
navio era “Alvorada”, aquele em que acidentalmente, Vicente entrara a bordo. Inês
chorou por vários anos. Até que um dia as lágrimas secaram. Não chorava mais,
mas ainda doía. A saudade a corroía por dentro, e ultimamente andava tendo
sonhos com a volta de seu filhinho.
Este
dia não havia sido diferente. À noite Inês sonhava que era jovem novamente e em
uma tarde ensolarada Vicente reaparecia, chamava por ela e jogava-se em seus
braços. Era apenas um sonho. Mas tinha ela certeza que iria tornar-se
real. Assim, seguiu sua rotina. Levantou-se,
vestiu sua melhor roupa e dirigiu-se ao porto, não se importou nem com a chuva
que caia fortemente. Dessa vez o porto estava quase vazio. Lá estavam menos
pessoas do que de costume. A chuva forte geralmente afugenta os reencontros.
Passaram-se
algumas horas, Inês já estava com frio quando teve o impulso de olhar o mar
mais de perto, colocou-se em pé próximo a beirada do cais para contemplar o
horizonte em busca da figura de Alvorada, cortando a monotonia.
E
por algum momento ela fecha os olhos.
Quando
torna a abri-los tem uma surpresa. O dia não está mais chuvoso, o sol está
brilhando muito mais forte, e pessoas que saem dos barcos reencontram aquelas
que os esperam com tanta saudade.
De
repente seus cabelos caem longos por seu corpo. Longos e negros. Ainda consegue
escutar uma voz vinda de longe. Seu coração explode de alegria. É uma voz de
criança. Na verdade é a sua criança, está ali bem a sua frente, Vicente, menino
ainda, com seus cinco anos de idade. Ela abre os braços buscando agarrar seu
filho. E ainda dá uns passos a mais.
Passos
largos e ansiosos demais. Passos estes que ultrapassaram o limite do cais.
Ninguém
viu essa cena. Todos juram não ter notado quando Inês caiu no mar. Só sabem que
ela não voltou à superfície.
Nem
pudera. Agora, dizem, finalmente Inês reencontrara seu menino.
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