quinta-feira, 2 de agosto de 2012

UM ROCK QUALQUER


Larissa Pereira Burchard

E de repente ele estava na frente do bar do Joe no meio da chuva, estava de noite mas o bar estava fechado e havia uma garota apoiada na porta. Era Lexie, com seus cabelos castanhos molhados e seus olhos escuros misteriosos o fitando “Você vai pegar uma gripe” ela disse com seu jeito convencida, mas ele não se importava com a chuva. Não naquele momento. Aproximou-se dela e sorriu, apoiando-se na porta para ficar ao seu lado. Estava estranha, tinha o costume de falar de tudo, contar histórias ou falar de sua ida ao mercado. Ela falava de tudo, mas naquele momento estava calada.

            Subitamente uma música começou a tocar dentro do bar, não sabia como nem o porquê, mas ela tocava calmamente. Não se lembrava do nome, mas a conhecia, era um rock que ela costumava escutar enquanto lia ou pensava em algo. Era simples e bom, um rock qualquer encontrado em um bar qualquer, como no bar do Joe.

            Ela sorriu e olhou para cima, para aquele céu escuro e sem graça, sem estrelas, sem lua, o vento que batia de frente bagunçou seus cabelos, mas ela continuou sorrindo e começou a cantarolar a músicas “Oh where, oh where, can  my baby be?...”

            - Vou sentir sua falta. – Ela falou e como em uma câmera lenta ela se aproximou de seu rosto, sentiu sua respiração lenta e calma, seu hálito fresco, nariz com nariz...

            Uma trovoada no céu o assustou e ele simplesmente acordou.

            Acordou entre estilhaços e cacos de vidro, estava tonto e suas costas doíam. Havia algo quente escorrendo por seu rosto e não sentia sua perna. No rádio uma música fraca e falhada tocava entre a fumaça e o cheiro de gasolina. A noite era mesma, sem estrelas, sem lua, sem graça. Mas com chuva. Tentou se lembrar do que havia acontecido, mas sua cabeça doía tanto que tentou simplesmente respirar e ficar calmo, mas calma era a última coisa que iria sentir.

            Ela estava ao seu lado no passageiro, havia um corte enorme e profundo em sua cabeça que não parava de sangrar. Tentou se aproximar, mas não conseguiu, a dor o fez gritar e o cinto apertou um corte em seu braço. “Não, por favor” ele implorou mentalmente, estava desesperado.

            E a música ainda tocava.

            Que se exploda o rádio, pensou e desejou do fundo de seu coração que a música parasse, mas ela continuou falhada e fraca, com um leve chiado.

            She's gone to heaven so I've got to be good…”

            A sensação de raiva o tomou por dentro e ignorando a dor soltou-se a força do cinto e com muito esforço chutou o rádio. Sua perna corroía por dentro e sua cabeça parecia explodir, mas a dor era o que menos importava. O importante era parar o rádio de todas as maneiras possíveis.

Um, dois, três chutes e o rádio ficou mais fraco, e foi parando, a música acabando...

“Oh where, oh where, can my baby be?” Escutou uma voz fraca e dedos gélidos tocarem seu pulso, sentiu o coração parar. Olhou por uma última vez para aqueles olhos escuros, agora brilhantes e com lágrimas, por uma última vez pode ver aquele sorriso torto.

She's gone to heaven so I've got to be good… So I can see my baby when I leave this world.”

O rádio silenciou, a música parou e a voz fraca agora calada permaneceu em sua cabeça.

“Ela foi para o paraíso, então eu terei que ser bonzinho. Assim poderei ver meu amor quando deixar esse mundo”.

Conto inspirado na música Last Kiss da banda Pearl Jam.


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