Larissa
Pereira Burchard
E
de repente ele estava na frente do bar do Joe no meio da chuva, estava de noite
mas o bar estava fechado e havia uma garota apoiada na porta. Era Lexie, com
seus cabelos castanhos molhados e seus olhos escuros misteriosos o fitando
“Você vai pegar uma gripe” ela disse com seu jeito convencida, mas ele não se
importava com a chuva. Não naquele momento. Aproximou-se dela e sorriu,
apoiando-se na porta para ficar ao seu lado. Estava estranha, tinha o costume
de falar de tudo, contar histórias ou falar de sua ida ao mercado. Ela falava
de tudo, mas naquele momento estava calada.
Subitamente uma música começou a
tocar dentro do bar, não sabia como nem o porquê, mas ela tocava calmamente.
Não se lembrava do nome, mas a conhecia, era um rock que ela costumava escutar
enquanto lia ou pensava em algo. Era simples e bom, um rock qualquer encontrado
em um bar qualquer, como no bar do Joe.
Ela sorriu e olhou para cima, para
aquele céu escuro e sem graça, sem estrelas, sem lua, o vento que batia de
frente bagunçou seus cabelos, mas ela continuou sorrindo e começou a cantarolar
a músicas “Oh where, oh where, can my
baby be?...”
- Vou sentir sua falta. – Ela falou
e como em uma câmera lenta ela se aproximou de seu rosto, sentiu sua respiração
lenta e calma, seu hálito fresco, nariz com nariz...
Uma trovoada no céu o assustou e ele
simplesmente acordou.
Acordou entre estilhaços e cacos de
vidro, estava tonto e suas costas doíam. Havia algo quente escorrendo por seu
rosto e não sentia sua perna. No rádio uma música fraca e falhada tocava entre
a fumaça e o cheiro de gasolina. A noite era mesma, sem estrelas, sem lua, sem
graça. Mas com chuva. Tentou se lembrar do que havia acontecido, mas sua cabeça
doía tanto que tentou simplesmente respirar e ficar calmo, mas calma era a
última coisa que iria sentir.
Ela estava ao seu lado no
passageiro, havia um corte enorme e profundo em sua cabeça que não parava de
sangrar. Tentou se aproximar, mas não conseguiu, a dor o fez gritar e o cinto
apertou um corte em seu braço. “Não, por favor” ele implorou mentalmente,
estava desesperado.
E a música ainda tocava.
Que se exploda o rádio, pensou e
desejou do fundo de seu coração que a música parasse, mas ela continuou falhada
e fraca, com um leve chiado.
“She's gone to heaven
so I've got to be good…”
A sensação de raiva o tomou por dentro e ignorando a dor
soltou-se a força do cinto e com muito esforço chutou o rádio. Sua perna
corroía por dentro e sua cabeça parecia explodir, mas a dor era o que menos
importava. O importante era parar o rádio de todas as maneiras possíveis.
Um, dois, três chutes e o rádio ficou mais fraco, e foi
parando, a música acabando...
“Oh
where, oh where, can my baby be?” Escutou
uma voz fraca e dedos gélidos tocarem seu pulso, sentiu o coração parar. Olhou
por uma última vez para aqueles olhos escuros, agora brilhantes e com lágrimas,
por uma última vez pode ver aquele sorriso torto.
“She's
gone to heaven so I've got to be good… So I can see my baby when I leave
this world.”
O
rádio silenciou, a música parou e a voz fraca agora calada permaneceu em sua
cabeça.
“Ela
foi para o paraíso, então eu terei que ser bonzinho. Assim poderei ver meu amor
quando deixar esse mundo”.
Conto inspirado na música Last Kiss da banda Pearl Jam.
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